Monday, May 23, 2016

Crónicas de uma aldeia transmontana

Não é de todo exagero referir que estas memórias extravasam o tempo, ao trazer o passado para o presente, pormenorizando histórias e narrativas de vida que se passaram. O leitor encontrará, nesta crónica, um valioso espólio etnográfico que vale a pena conhecer ou relembrar, uma homenagem merecida à minha aldeia de Argoselo e suas gentes, lendas e mitos, e paisagens de uma beleza inexplicável. Era o tempo em que sabíamos tomar conta de nós. Cada um em equilíbrio com a sua natureza. Tempo em que não se ficava em casa para não estragar as audiências na televisão, tempo em que éramos pobres de quase tudo mas ricos de tempo, havia tempo para aprender a ser humano e tempo para viver em ajuda mútua, este era o método mais avançado da evolução das nossas qualidades que utilizávamos para viver e ajudar a viver. Era o tempo em que éramos, estávamos, sem consumos obrigatórios. Renda da casa. Água. Luz. Telefone. Gás. Sem pensar em vestir muito caro. Sou do tempo onde cada um sabia da bisbilhotice que trazia união, era assim que se comunicava em que cada um procurava só a informação necessária à acção. Não era melhor. Não seria pior. Mas era desta maneira em Argoselo e noutras aldeias vizinhas não seria diferente Nessa altura sentíamos-nos confinados a este modo de estar, era como se nos tivessem raptado e nos afastassem de todas as coisas boas ou más que estavam a acontecer no mundo, à espera que o tempo passasse e nos levassem até à civilização.

Está quase aí o tempo de férias e já estou a planear em ir já para o mês de junho!

Certamente não serão diferentes dos outros anos! Por norma vou sempre passar o verão entre Bragança e Argoselo, terra onde me sinto bem com as minhas gentes.

Todas as tardes saio de Bragança e vou dar uma volta até aldeia, hoje Vila. Sento-me no banco do jardim dos peliqueiros frente à casa do Ramiro, entre outros velhotes. Gosto de os ouvir falar, de ver a desconfiança com que olham para cada carro que passa ("estes são estrangeiros, devem ir para Miranda ou Vimioso"), da forma diferente como vivem o tempo parece que estão ali desde sempre, que são velhotes desde sempre, que se entretêm com as mesmas coisas desde sempre: dar dois dedos de conversa, comentar a vida alheia, estar atento a quem passa. Imagino que seja assim em todas as aldeias. "Aqui não se passa nada, deve aborrecer-se, não?", Perguntou-me um deles. Disse-lhe que não, que não me aborrecia nada. Que, na verdade, gostava mesmo muito de aqui estar, que me sabia bem este ritmo e esta despreocupação. Talvez porque sei que é por um tempo limitado, que a minha vida não é assim todos os dias, esta calmaria. É mesmo verdade que aqui não se passa nada. A maior agitação está guardada para as manhãs, quando o carro do peixe do pão ou da fruta entram pela aldeia a buzinar desenfreadamente logo às seis sete e tal da manhã. Depois pronto, não acontece mais nada. Contam-se os carros que passam, almoça-se, dorme-se a sesta, volta-se de novo para a rua, e é isto. Já não há crianças a brincar na rua como havia no meu tempo. Cresceram, foram fazer a vida delas para outro lugar qualquer. Ainda me lembro de sermos uns 20 a jogar às escondidas nas noites de Verão, até às tantas. Não havia perigos, não havia telemóveis, éramos felizes e víamos os Jogos Sem Fronteiras. Poucas são as vezes que dou uma volta às noites com o Ramiro meu irmão porque a saúde não me permite, mas quando saio já não é como noutros tempos, não se vê praticamente uma alma. Não há gente nova, só velhotes, e esses deitam-se cedo. No Inverno ainda é pior. Já houve oito ou nove cafés e outros tantos comércios. Agora estão dois ou três cafés abertos. É assim que hoje o comércio da aldeia hoje Vila se resume, praticamente a isto. São os tempos...

Por Ilídio Bartolomeu (http://bartolomeuargoselo.blogspot.pt/2016/05/era-assim-em-argoselo_21.html)

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